Aniversário sem festa – Cordel de Marcos Mairton

Aniversário sem festa – Cordel de Marcos Mairton

Neste ano em que completo 50 de idade, resolvi registrar a data contando, em cordel, passagem verdadeira da minha vida e da minha família, relacionada a festas de aniversário.

Claro que melhorando um ponto ou outro da história, pois não existe Cordel sem fantasia, nem fantasia que não caiba em um Cordel.

Na foto, este cordelista, acompanhado dos personagens da história: Seu Mansueto, Dona Ivonete e meu irmão Materson.

ANIVERSÁRIO SEM FESTA

Aos dezessete de agosto,
Registro no calendário
O dia em que comecei,
Na vida, o itinerário.
Mas, não trago na lembrança
De em meus tempos de criança
Festejar aniversário.

Fiz quarenta e nove anos
Sem nunca ter perguntado
Ao meu pai ou minha mãe
Por que não tenho guardado
No arquivo da minha mente
Um aniversário somente
Na infância celebrado.

Eu vejo que, hoje em dia,
A família é reunida
Sempre que um de nós completa
Mais um ano nessa vida.
Seja de adulto ou criança
Tem sempre alguma festança
E animação garantida.

Por isso que eu me pergunto:
“E naqueles tempos idos?
Quando menino eu sonhava
Com brinquedos coloridos?
Festejar meu nascimento
Não seria fundamento
Para estarmos reunidos?”

Mas, antes dos meus cinquenta,
Aos meus pais eu perguntei:
“Por que é que, até hoje,
Eu jamais me recordei
De alguma celebração,
Festa ou comemoração
Do dia em que aqui cheguei?”

O que eu perguntei a eles
Não causou muita surpresa.
O meu pai me respondeu,
Com a habitual franqueza,
E puxou pela memória
Para explicar a história
Com detalhes e clareza.

Disse: Meu filho, está certa
A sua observação.
Pois, festa de aniversário,
Nós nunca fizemos, não.
Nem em casa, nem na rua,
Nunca teve festa sua
Nem também de seu irmão.

E a causa de ser assim,
Passo agora lhe dizer,
E, saiba que ela surgiu
Antes de você nascer.
Aconteceu à noitinha,
Em uma simples festinha
Que nós tentamos fazer.

Pois saiba que o seu irmão,
Que é mais velho que você
Quando completou um ano,
E era apenas um bebê,
Preparamos a comida
E até alguma bebida
Pra fazer um balancê.

Uma festinha bem simples,
Para a família, somente,
O povo mesmo de casa,
Algum amigo ou parente,
Pois sua mãe não gostava,
E nem o dinheiro dava,
Pra convidar muita gente.

Mas, com jeito e alegria,
Tudo ali se acomodava.
E, lá pelas seis da noite
A gente se preparava,
E em casa se reunia,
Quando ouvi que alguém batia
Palmas na porta e chamava.

Fui atender, e um rapaz,
Com outro a lhe acompanhar,
Perguntou: “É uma festa?
Se for, vou querer entrar.
Somos eu e meu amigo,
Ele veio aqui comigo
Para essa festa animar”.

Naquele tempo existiam
Os chamados valentões,
Que saíam a beber
E arranjar mil confusões.
E os dois eram conhecidos,
Noutras brigas envolvidos
Em muitas ocasiões.

De imediato, eu senti
Que a coisa ia complicar.
Porque, se eu não permitisse
Que eles pudessem entrar,
Naquela hora, ou depois,
Com certeza, aqueles dois,
Tentariam me enfrentar.

Mas, deixar eles entrarem,
Também nada resolvia,
Porque, já dentro de casa,
Um deles arrumaria
Com certeza, alguma intriga,
E, logo, logo, uma briga,
Na certa começaria.

E, como naquele tempo,
Eu era jovem e disposto,
Também não queria abrir
Minha casa a contragosto.
Em vez de me intimidar
Tratei logo de mostrar
Que o resultado era oposto.

Então, disse logo a eles:
– Sua entrada não convém.
Nem você foi convidado,
Nem seu colega também.
Os que aqui estão presentes,
São amigos ou parentes,
E não entra mais ninguém.

Depois de falar assim,
Tratei logo de fechar
A porta da nossa casa
Para ele não entrar.
Mas, sentindo que eu estava
Dando o que ele procurava:
Um motivo pra brigar.

Mas, preciso esclarecer,
Nesse ponto, uma questão.
As casas daquele tempo
Não eram juntinhas, não.
Todo mundo ali sabia
Que entre elas existia
Um beco, chamado “oitão”.

E, seguindo pelo oitão,
Se chegava no quintal.
Do quintal para a cozinha,
O acesso era total.
Então, fui me prevenir
Pois, por lá podia vir
O bandido, o marginal.

E, assim pensando, corri
Para a porta da cozinha,
Mas, quando me aproximei,
O desgraçado já vinha.
Tinha entrado pelo oitão
E chegava feito um cão,
Feito um galo em uma rinha.

Vinha de faca na mão
Disposto a sangrar alguém,
E, vendo a faca, eu tratei,
De me preparar também,
Pois nunca fui encrenqueiro,
Mas, dentro do meu terreiro,
Eu nunca temi ninguém.

Em um canto da cozinha,
Eu sempre deixava lá,
Uma vara de um metro
De madeira sabiá.
Não era bem um porrete,
Mas era um duro cacete,
Que se chama de jucá.

De jucá na mão eu fui
Em direção ao bandido,
E meti a cacetada
Por cima do pé do ouvido,
Que se tivesse pegado,
Sei que ele tinha ficado
Por ali mesmo caído.

Mas o cabra era ligeiro,
E depressa se esquivou.
Com dois passos para trás,
Para o quintal recuou,
Aí eu ganhei moral,
E ali mesmo, no quintal,
A batalha começou.

Fui pra cima do sujeito,
Com uma vontade danada,
De pegar ele de jeito,
E acertar uma paulada,
Mas, sabendo do perigo
De que aquele inimigo
Me acertasse uma facada.

Continuei avançando,
Enquanto ele recuava,
E, atravessando o oitão,
Depressa a gente chegava,
Na rua, onde muita gente,
Se juntou rapidamente,
Pra ver o que se passava.

E, chegando ali, na rua,
Foi que a chibata cantou,
E o amigo do bandido,
Na briga também entrou.
E, talvez por não ter faca,
Me atacou com uma estaca,
Que quase me acertou.

Eu, que estava decidido
Ao problema resolver,
Parti pra cima dos dois,
Sem vacilar nem tremer.
Distribuindo paulada,
Parti para o tudo ou nada
Era matar ou morrer.

Foi assim que, com destreza,
Ou, talvez, com muita sorte,
Acertei uma paulada,
Mais certeira do que forte,
Na testa do desgraçado,
Que de faca estava armado,
E abriu-se ali um corte.

Mas o cabra era valente,
E, mesmo estando sangrando,
Não se dava por vencido
E continuou brigando.
E tinha o outro bandido
Também muito destemido,
Todo o tempo me atacando.

Ele até me acertou
Na costela, uma pancada,
Que mais de um mês depois
Inda estava meio inchada,
E a camisa que eu vestia
Não teve mais serventia
Pois ficou toda rasgada.

Aquela situação
Só viria a melhorar
Quando o pai da sua mãe
Correu para me ajudar.
Quando o seu avô chegou,
Depressa o jogo virou,
Pra nos beneficiar.

O seu avô, João Domingos,
Você deve lembrar bem,
Sorria e falava pouco,
Não mexia com ninguém,
Também, quando se irritava,
Nada mais lhe segurava,
Não abria nem pro trem.

Naquele dia, ele veio,
Para a nossa residência,
Festejar o seu irmão,
Por um ano de existência,
Mas, naquele aniversário,
Logo fez-se necessário
Partir para a violência.

Foi pra cima do sujeito
Que já estava sangrando,
Depressa tomou-lhe a faca,
E foi logo derrubando,
De repente, o valentão,
Estirado ali no chão,
Mal estava respirando.

Com o da faca dominado,
O da estaca quis correr,
Mas tinha aquela paulada,
Que eu queria devolver.
Acertei o infeliz,
Bem no meio do nariz,
E vi o sangue descer.

Nessa hora apareceu
A polícia militar,
E acabou a confusão
Que já ia terminar.
Levaram os dois malfeitores
Pra cuidar das suas dores
Na assistência popular.

Depois de encerrada a briga
Com aqueles dois marginais,
As pessoas retomaram
Seus afazeres normais.
Ficou só o comentário,
E a festa de aniversário,
Que ia haver, não houve mais.

E nem nos anos seguintes
Houve comemoração,
Celebrando aniversário,
Nem seu, nem do seu irmão.
Só muitos anos depois,
Já rapazes, vocês dois,
Passaram a organizar
Suas comemorações,
E, sem haver valentões,
Para vir atrapalhar.

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