CORDEL DE SEMANA SANTA

CORDEL DE SEMANA SANTA

COMO JUDAS ME AJUDOU A CORDELIZAR
Marcos Mairton

Para mim, Semana Santa,
bem mais que religião,
foi sempre como um costume,
uma grande tradição.
Ir à missa e à vigília
era encontro de família,
nunca foi obrigação.

Na quinta-feira maior,
tinha missa e romaria,
a minha avó jejuava
nesse dia não comia.
À noite era o “Lava-pés”.
Mais tarde, depois das dez,
a vigília se inicia.

Já a Sexta-Feira Santa,
era um dia de recato,
sem menino jogar bola
e sem mulher lavar prato.
Acredite quem quiser,
o marido e a mulher
não tinham qualquer contato.

À noite, perto da igreja,
na hora da encenação
da peça “Paixão de Cristo”,
se ajuntava a multidão.
Ali os jovens atores,
apesar de amadores,
nos enchiam de emoção.

Mas o Sábado de Aleluia
era do que eu mais gostava,
e o testamento do Judas
com meus tios preparava.
Desde os dez anos de idade
eu mostrava habilidade,
nos versos que elaborava.

O testamento era todo
rimado e metrificado,
e o patrimônio de Judas
assim era destinado
a todos ali presentes
que recebiam contentes
a herança do finado.

Para um ficava a corda,
para outro o dinheiro,
para alguém suas sandálias,
o manto para um terceiro.
O povo se divertia
enquanto se dividia
o seu patrimônio inteiro.

E a gente ainda usava
sempre aquela ocasião
para fazer com os vizinhos
uma grande gozação,
relembrando apelidos
e fatos acontecidos
com os amigos de então.

Para o homem preguiçoso,
o Judas deixava a rede.
Para a mocinha faceira
um espelho na parede.
Se o cabra era cachaceiro,
cachaça pro ano inteiro,
para não morrer de sede.

E foi nesses testamentos
de Judas que fui fazendo
que da métrica e da rima
mais e mais fui aprendendo
a popular poesia
dos cordéis que, hoje em dia,
sigo em frente escrevendo.

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