O DIA EM QUE CONHECI GONÇALO

O DIA EM QUE CONHECI GONÇALO

Hoje, domingo, oito de junho de 2014, completa uma semana que quitei uma velha dívida que tinha comigo mesmo:  visitar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, no Rio de Janeiro, um desejo que acalentava desde que publiquei o meu primeiro folheto de cordel, há quase dez anos.

Pelas duas da tarde saí do hotel onde estava hospedado em Copacabana e segui de táxi para Santa Teresa, onde encontraria Gonçalo Ferreira da Silva, com quem já havia conversado duas ou três vezes por telefone, mas não conhecia pessoalmente.

Recebeu-me com um largo sorriso e um abraço afetuoso, como quem reencontra um velho amigo:

– Seja bem vindo, poeta!

Eu, cauteloso como sempre, mesmo tendo avisado que iria, tratei de ir me apresentando. Mas, antes que dissesse meu próprio nome, Gonçalo interrompeu:

– Mas, claro que é você, poeta! Sua obra chegou antes! Aqui você está em casa!

De fato, daí em diante, foi uma conversa sobre poesia, literatura, filosofia e outras coisas mais, que quem por ali passasse teria certeza que éramos mesmo velhos amigos.

Aliás, enquanto conversávamos, chegou um casal à procura de cordéis adequados para crianças – parece que para um trabalho escolar do filho – e saiu com vários folhetos. Depois apareceu uma francesa que, apesar de não falar quase nada de português, queria cordéis que falassem de filósofos gregos. Conseguiu dizer que era professora e se interessava pelo assunto. Saiu de lá com trabalhos de Gonçalo sobre Aristóteles, Platão e outros mais. Fiquei admirado com aquilo: em plena tarde de domingo, uma professora estrangeira procurando cordéis sobre filosofia! E achou!!

Mais tarde, chegou por lá o cordelista William J. G. Pinto, também acadêmico da ABLC, e a conversa ficou ainda mais animada. Divertimo-nos declamando alguns versos. Até o ambulante, que passou vendendo empadas e brigadeiros, ficou à vontade para cantar um samba que havia feito para anunciar os seus produtos. Madrinha Mena também chegou depois e se demorou um pouco conosco.

Estava tão feliz que nem vi a noite chegar. Até porque chegou mais cedo, trazida por uma chuva que não estava prevista no boletim meteorológico daquele dia.

Despedimo-nos, mediante a minha promessa de fazer nova visita da próxima vez que for ao Rio de Janeiro, e tomei o táxi de volta para Copacabana. No caminho, lembrava admirado daquele homem tão importante para a cultura brasileira, e que demonstrara tanta gentileza ao me receber, chegando a dizer que conhecia minha obra como cordelista, quando, na verdade, era eu quem tinha o dever de conhecer o muito que ele já fez nesse campo da Literatura de Cordel.

Mas, uma última boa surpresa ainda me aguardava naquele dia. Ao chegar ao hotel, comecei a ler alguns livros que Gonçalo havia me presenteado e, ao folhear “Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel”, de sua autoria, deparei-me, na página 25, com um capítulo intitulado “O infundado temor dos intelectuais”, onde está escrito o seguinte: “Muitos dos nossos intelectuais acham que, com a escolaridade dos nossos atuais e principais poetas, a Literatura de Cordel corre o risco de descaracterizar-se. Puro engano. Pedro Bandeira é bacharel em Direito e, embora tenha feito fama cantando repente ao som da viola, é um dos mais autênticos cordelistas, tendo já publicado algumas centenas de folhetos. Marcos Mairton é juiz federal; Fernando Paixão é teólogo. Varneci Nascimento é historiador e Marco Haurélio é professor”.

Fiquei orgulhoso, não nego. Não esperava ver meu nome citado em uma obra de Gonçalo Ferreira da Siva, ainda mais assim, lembrado como um dos valores entre os poetas mais letrados.

Olhei o ano de publicação do livro – 2012 – e pude constatar que, ao dizer que minha obra chegara antes de mim, ele não havia apenas sido gentil. A gentileza estava acompanhada de um profundo interesse pela Literatura de Cordel, que o leva conhecer inúmeras obras de escritores mais tradicionais, mas se permitindo sempre estar atento ao que os mais novos produzem.

Sua benção, mestre Gonçalo Ferreira da Silva! Quando voltar ao Rio, hei de voltar a Santa Teresa para tomarmos um café e conversarmos novamente!

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