O Jumento que Jesus Montou – Marcos Mairton

O Jumento que Jesus Montou – Marcos Mairton

Quem alguma vez na vida
Leu o novo testamento,
Sabe que em Jerusalém,
No passado, houve um jumento
Que a Jesus transportou,
Quando na cidade entrou
Com muito contentamento.

Naquele dia, Jesus,
Aos discípulos disse assim:
“Há ali um jumentinho
A comer o seu capim.
Sigam até o local
Onde está o animal
E tragam ele até mim”.

“Se alguém lhes perguntar
Por que o estão levando
Digam só que o Senhor
Está dele precisando.
O bicho vem emprestado
Mas logo haverá voltado
Para onde está pastando”.

Tal como dito foi feito,
E foi assim que Jesus
Entrou em Jerusalém
Espargindo a sua Luz!
Ninguém imaginaria
Que depois ele seria
Morto pregado na cruz.

Mas, essa parte da história
Já é muito conhecida.
Outra parte importante
Acabou sendo esquecida,
Pois o Novo Testamento
Nada diz sobre o jumento
E o que houve em sua vida.

Muitos séculos passaram
Sem ninguém dar atenção
À história do animal
Que naquela ocasião
Pelo Senhor foi chamado
Para ser utilizado
Naquela nobre missão.

Até que, em 2006,
Nas ruínas de um convento,
Um arqueólogo russo
Encontrou um documento,
Em boa conservação,
Que narra com precisão
A história do jumento.

É uma espécie de diário
Do dono do animal
Onde ele anotou tudo
(data, hora e local)
O que houve com o jumento,
Depois daquele momento
Que ele voltou ao curral.

Consta que, naquele dia,
Depois que Jesus entrou
Naquela cidade santa
O povo o acompanhou
Dando vivas e aplaudindo
Dizendo: “Tu és bem vindo!”
“O Senhor te enviou!”

Mas Jesus seguiu direto
Para o templo da cidade
Onde encontrou mercadores
Na maior atividade.
Jesus disso não gostou
E a todos expulsou
Com poder e autoridade.

Logo ao chegar ao local,
Depois de haver apeado,
Jesus foi quebrando mesas,
Deixando tudo virado
E dizendo: “Ó, Senhor,
Esse povo – que horror –
Fez da Tua casa um mercado”.

No meio da confusão
O jumento escapuliu.
Deixado solto na rua,
Aproveitou e fugiu.
Voltou para onde estava
De manhã, quando pastava,
E seu dono o seguiu.

O resto do dia foi
Para aquele animal
Como costumava ser,
Do pasto para o curral.
Somente no outro dia
Seu dono perceberia
Algo muito especial.

Naquela manhã, bem cedo,
O dono, senhor Boaz,
Dirigiu-se ao curral,
Para ver os animais,
E teve um susto danado,
Quando viu que no cercado
Um bicho cresceu demais.

O pequeno jumentinho
Que no dia anterior
Foi tomado emprestado,
A serviço do Senhor,
Estava grande, robusto,
Eis o motivo do susto
Do seu velho criador.

O velho tinha certeza
Que era o mesmo jumento.
Só não tinha explicação
Para aquele crescimento.
Até a sua postura
Lembrava uma escultura,
Parecia um monumento.

Enquanto o velho estava
Olhando admirado,
O jumento veio andando
E parou bem do seu lado.
Com a ponta do focinho
Fez no velho um carinho
Com um gesto delicado.

Então Boaz entendeu
O que tinha acontecido.
Só podia ser milagre
O que tinha ocorrido.
Deus pegara emprestado
O bicho no seu cercado
E devolveu corrigido.

Pensando dessa maneira
Boaz se encheu de alegria.
O jumento, para ele,
A partir daquele dia,
Era como um companheiro,
Um amigo verdadeiro
Que com ele convivia.

A esse amigo, Boaz
Deu o nome de “Presente”,
E logo viu que o jumento
Era um bicho competente:
Forte como um elefante,
Demonstrava, a todo instante,
Que era muito inteligente.

Carregava no seu dorso
Muitos troncos de madeira.
Em cima, ia Boaz,
Sentado em uma cadeira.
Presente nem se abalava
Para a frente avançava
Até subindo ladeira.

Quando entravam na cidade
Boaz e o seu jumento,
Todo mundo admirava,
Era grande o movimento.
O velho não escondia
Toda sua alegria,
Todo o seu contentamento.

E assim, passou-se o tempo,
Um ano e um pouco mais,
Com o velho e seu jumento
Vivendo sua vida em paz
Até que a inveja veio
E se atravessou no meio
Entre Presente e Boaz.

Era chamado Razi
Certo homem que morava
Perto da propriedade
Onde Boaz habitava,
E ficava observando
O jumento trabalhando
Cada dia que passava.

Com o tempo, a inveja
Cresceu em seu coração,
De ver no velho Boaz
Tamanha satisfação
De ter sempre em seu curral
Aquele belo animal
À sua disposição.

Pensava então Razi:
“Boaz é um velho nojento,
E ainda ficou pior
Por causa desse jumento.
Mas, hei de presenciar
A hora de se acabar
Esse seu convencimento”.

Essa inveja, pouco a pouco,
O dominou totalmente,
E ele, então, decidiu
Dar um sumiço em Presente.
E passou a planejar
Um jeito de eliminar
O animal inocente.

Razi pensava consigo:
“Vou roubar o animal.
No meio da madrugada,
Fujo pelo matagal
E levo para um lugar
Onde ele possa ficar
Escondido em um curral”.

“Ali eu deixo ele preso
O tempo que precisar
E levo uma jumenta
Para com ele cruzar.
Depois que ela pegar cria
Eu, logo no mesmo dia,
Posso dele me livrar”.

“Assim eu mato esse bicho,
E não perco sua semente.
Apago a prova do crime
Mas fico com o descendente.
E, quanto ao velho Boaz,
Espero que nunca mais
Fique esnobando a gente”.

Passados mais alguns dias,
A hora era chegada,
De Razi sair de casa
No meio da madrugada
Pra sequestrar o jumento
Pondo, assim, em andamento,
A estratégia traçada.

Enquanto o velho Boaz
Dormia despreocupado,
Razi depressa fugia
Com o animal furtado.
E pela manhã chegava
Ao lugar que já estava
Desde antes preparado.

Quando amanheceu o dia
Boaz teve um passamento
Ao ver que no seu curral
Não estava seu jumento.
A notícia era terrível,
Não podia ser possível,
O desaparecimento.

Boaz sofreu vários dias,
Mas depois se conformou
Com a perda do animal
Que a ele tanto ajudou.
No meio da aflição,
Do seu vizinho ladrão
Nem sequer desconfiou.

Razi então prosseguiu
Executando o que havia
Planejado muito antes
Na sua mente sombria.
Só faltava o cruzamento
Do valioso jumento
Com a jumenta “Vadia”.

Mais uns dias se passaram
E estava consumado:
Com a jumenta Vadia,
Presente havia cruzado,
E, pelo que observou,
Razi logo constatou
Que a bicha havia emprenhado.

Chegou a hora, então,
De eliminar Presente,
Para concluir o plano
Que foi tão eficiente.
Mas sua sorte mudou,
E a história tomou,
Um rumo bem diferente.

Pois quando Razi entrou
De mansinho no curral,
Carregando escondido
O pontiagudo punhal,
Presente se agitou,
Parece que adivinhou
Que chegava seu final.

Razi então segurou
No cabresto de Presente,
Mas o animal ficou
Ainda mais impaciente.
Saiu andando de lado,
Saltou fora do cercado
E disparou de repente.

Agora, para contar
O que houve em seguida,
Preciso mudar a métrica
Que tinha sido escolhida.
Deixando a septilha
Adotarei a cartilha
Da famosa “embolada”,
Pra dar mais velocidade
E também realidade
À história que é contada.

Presente corria
Em tal disparada
Que pela estrada
Depressa sumia.
Subia e descia,
Barranco e ladeira,
Saltava porteira,
Com velocidade
Entrou na cidade
Fazendo poeira.

Passou pela feira
E daquele jeito
Levava no peito
Barraca e cadeira
Balaio e fruteira,
A tudo arrastava
Pisava, quebrava
Sem fazer rodeio,
Estava sem freio
E nada o parava.

Pois continuava
Temendo Razi
Que estava ali,
Jamais se afastava.
Seu corpo estava
Colado ao jumento.
Cada movimento
Que o bicho fazia
Razi o seguia
No mesmo momento.

Pois, quando o jumento
Correu assustado,
Levou enganchado
Aquele elemento
Que com o intento
De lhe apunhalar
Tentou segurar
O pobre animal
Quis fazer o mal,
Mas levou azar.

Retomando a septilha
Continuo a narração
Diante daquela cena
Que causava comoção:
O homem e o jumento
Caídos no calçamento
Deitados ali no chão.

Depois de muito correr,
Presente havia caído
Ali no meio da rua
E lá ficou estendido.
No chão de Jerusalém
Razi estava também
Desmazelado e ferido.

O que houve, na verdade,
Foi que, ao tentar segurar,
O cabresto do animal,
Razi fez foi se enganchar.
Assim, quando disparou,
O animal lhe arrastou
Até aquele lugar.

Depressa uma multidão
Cercou Razi e Presente.
Foi quando surgiu Boaz
No meio daquela gente
E logo reconheceu
Que o jumento era o seu
Que há muito estava ausente.

Boaz, tomado de susto
Diante da situação,
Caiu imediatamente
Ajoelhado no chão
E ouviu Razi dizer:
“Boaz, antes de morrer,
Quero pedir teu perdão”.

“Por despeito e por inveja
Roubei o teu animal,
Mas, como tu podes ver,
O resultado final,
Foi que a ti prejudiquei
E ao bicho maltratei
Mas a mim também fiz mal”.

“Agora estamos morrendo
O jumento e eu também,
No meio de uma rua
Da grande Jerusalém.
Tudo isso, na verdade,
Só prova que a maldade
Não favorece a ninguém”.

“Eu sei que o teu prejuízo
Já não posso ressarcir,
Mas a tua perda eu quero
Ao menos diminuir,
O jeito de te pagar
Vou agora te falar
Para todo mundo ouvir”.

“A cinco léguas daqui,
Na fazenda Vacaria,
Está a minha jumenta
Cujo nome é Vadia.
Está prenhe de Presente,
Esse animal tão valente
Que eu te roubei um dia”.

“Vai até lá e explica
Para quem te atender
Que a jumenta Vadia
Passou a te pertencer
Pois te dei em pagamento
Em troca de um jumento
Que eu estava a te dever”.

“Desse jeito vou morrer
Um pouco mais sossegado,
Mesmo que eu não possa ser
Por ti jamais perdoado.
Mas, se puder perdoar,
Só me resta te falar:
– Adeus e muito obrigado”.

Disse isso e foi parando
A sua respiração.
Mal deu pra Boaz dizer:
“Te perdôo, meu irmão”.
E Razi esmoreceu,
Na mesma hora morreu,
Estirado ali no chão.

Boaz olhou pra Presente
E viu que o animal
Dentro de alguns minutos
Teria destino igual.
De fato, logo em seguida,
Toda a sua curta vida
Tinha chegado ao final.

Com a morte de Razi
E a morte do jumento
Essa história poderia
Acabar neste momento,
Mas não posso terminar
Sem primeiro revelar
Outro acontecimento.

Aconteceu que Boaz,
Depois do que se passou,
Levou o jumento morto
Para casa e enterrou
Lá no fundo do quintal,
Rezou pelo animal,
Recolheu-se e repousou.

Dormiu e logo sonhou
Que estava muito doente
E no sonho apareceu
O seu amigo Presente
Que lhe vendo passar mal,
Foi buscar no seu quintal
Uma erva diferente.

Boaz tentou receber
O que Presente trazia
Mas, por mais que ele tentasse
Receber, não conseguia.
Acordou sentindo dores,
Calafrios e tremores
Na manhã do outro dia.

Levantou-se abatido,
E foi fazer um mingau.
Mas, pela porta dos fundos,
Avistou um matagal
E tomou um grande susto
Ao ver que um grande arbusto
Nascera no seu quintal.

Pois a planta era igual
À que Presente lhe dava
No sonho, naquela noite,
Mas ele não alcançava.
Boaz não titubeou:
Umas folhas arrancou
E logo um chá preparava.

Depois que tomou o chá,
Sentiu-se recuperado.
Voltou para o quintal
E percebeu espantado
Que a planta-medicamento
Nascera onde o jumento
Tinha sido enterrado.

Desde então aquele velho,
Para tudo que sentia,
Botava um pouco da planta
Numa panela e fervia.
Pegava o chá e tomava
E logo recuperava
A saúde e a alegria.

Até hoje é um mistério
Como e quando ele morreu
Mas, mais de duzentos anos,
Já se sabe que viveu.
Hoje, muitos cientistas
Ainda procuram pistas
Daquele velho judeu.

Descobriram, por exemplo,
Que a jumenta Vadia,
Que Razi deu a Boaz,
Nunca chegou a dar cria.
Ou Vadia abortou
Ou nem sequer emprenhou,
Mas o certo é que Presente
Viveu essas aventuras,
Entrou para as escrituras
Mas não deixou descendente.

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