Pé de chumbo, pé de vento
Essa é uma história baseada em fatos da vida real. Memórias de minha infância, sempre recheada de aventuras, no meu querido bairro do Pirambu, em Fortaleza. Memórias de uma noite...
Por NAILSON ANSELMO.
Sou do tempo que acordava
E então escovava os dentes
Logo depois merendava
Saía todo contente
Atrasado de dar pena
Com uma mochila na mão
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Hoje o tempo é pra dormir
Meu habitat é a cama
Fico só a refletir
Parado igual boi na lama
Sorrindo como uma hiena
Ou feroz feito zangão
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Sou do tempo que, num lar,
Todo mundo se abraçava
Podia se aconchegar
A gente até se cheirava
Agora, é uma coisa amena
Pela contaminação.
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Hoje é só gente trancada
Olhando o computador
Com a mente impressionada
Um mundo apavorador
Nasce um, morre centena!
É grande a desolação
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Já não tem mais futebol
Nem dominó na calçada
Caminhada no arrebol
Companheiros na estrada.
Pagar conta era dilema
Trabalhar, satisfação.
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Hoje está tudo parado
Só malho o dedo na tecla
Como em pé e até deitado
Só o horário é a mescla
Quero até tocar “malena”
Liberdade é na prisão
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Lembro o médico que dizia:
“Caminhe, se movimente”
“Tenha afeto todo dia”
“Ocupe mais sua mente”
Se trancar nos envenena
Viva em paz com seu irmão
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão
*
Hoje tem que obedecer
O Diário Oficial
E não pode se esquecer
Do álcool fundamental.
Da janela a gente acena
E liga a televisão
Já chega de quarentena
Que deus tenha compaixão.