Pé de chumbo, pé de vento
Essa é uma história baseada em fatos da vida real. Memórias de minha infância, sempre recheada de aventuras, no meu querido bairro do Pirambu, em Fortaleza. Memórias de uma noite...
Hoje, 30 de março de 2016, o poeta Thiago de Mello completa 90 anos de idade.
Já tem um tempo que escrevi esses versos em sua homenagem, incentivado por Flávio Martins, editor de alguns de meus livros.
A ideia inicial era publicá-los em um livro sobre o poeta, mas fixei a data de hoje como limite: se o livro não ficasse pronto, postaria o texto no Mundo Cordel. Na íntegra.
O texto é esse.
Thiago de Mello e “Os Estatutos do Homem”
Marcos Mairton
Thiago de Mello é,
da palavra um artesão,
transformando em poesia
o barro que sai do chão,
Colhendo da natureza
versos de grande beleza
que nos tocam o coração.
Natural de Barreirinha,
nessas terras brasileiras,
sua arte ganhou o mundo,
e, além de nossas fronteiras,
Os seus poemas são lidos,
muitos deles traduzidos
para línguas estrangeiras.
Pois a obra de Thiago,
Tem sabor universal
Sem perder o bom tempero
da cultura regional,
do lugar onde nasceu,
da floresta onde cresceu,
da planta e do animal.
“Eu sou filho da floresta”,
Thiago é quem anuncia,
“O meu coração é feito”
– disse ele, certo dia –
“todo de água e madeira.
Na correnteza ligeira
vou buscar minha energia”.
Amante da liberdade,
por ela tendo paixão,
Thiago não poderia
conviver com a repressão.
E em uma era obscura,
o poder da ditadura
o mandou para a prisão.
Após deixar a prisão,
o poeta se exilou
em países estrangeiros
onde abrigo encontrou.
Longe da terra natal,
Argentina e Portugal
são lugares onde andou.
Na Alemanha e na França
o poeta residiu,
num tempo em que não podia
retornar para o Brasil.
No Chile encontrou ajuda
E o grande Pablo Neruda
sua obra traduziu.
Com o fim da ditadura
Thiago retornaria
Ao Brasil, e na Amazônia,
É onde vive hoje em dia.
E assim segue criando,
No mundo vai semeando
O amor e a poesia.
Dentre os seus belos poemas,
Que encantam tanta gente,
“Os Estatutos do Homem”
Expressam magistralmente
O Direito Natural
Em “Ato Institucional
de caráter permanente”.
Thiago, grande poeta,
Peço a ti que me permitas
Dizer do meu jeito as coisas
Que por ti já foram ditas,
Pois em meus versos matutos,
As regras dos “Estatutos”
Podem ser assim escritas:
“Os Estatutos do Homem”, em Cordel
Artigo I
Uma regra inafastável
Fica estabelecida:
Que vale agora a verdade,
Que agora vale a vida.
De mãos dadas marcharemos,
Todos juntos seguiremos,
Numa marcha destemida.
Artigo II
Fica também decretado
Que é possível transformar
Qualquer dia da semana
Num domingo em frente ao mar.
E até nas terças-feiras
Haverá mil brincadeiras
E razões pra se alegrar.
Artigo III
Fica decretado que
Nas casas, em todas elas,
Existirão girassóis
Enfeitando as janelas.
Girassóis e outras flores,
Numa explosão de cores
Azuis, brancas, amarelas…
E, mesmo dentro das casas,
Onde o sol não os alcança,
Girassóis abrir-se-ão
Em misteriosa dança.
E, ao ver seu movimento,
Logo soprará o vento,
Mensageiro da esperança.
Artigo IV
Fica também decretado
Que o homem não terá
Que duvidar mais do homem
E nele confiará,
Tal qual a noite confia
Que lhe seguirá o dia
e o sol logo brilhará.
Parágrafo único:
Um homem confiará noutro
Como a palmeira confia
no vento, que vem do mar,
e a ela acaricia.
Ou meninos que, sem medo,
Compartilham um brinquedo
Com inocente alegria.
Artigo V
É decretado que os homens
já não são submetidos
ao domínio da mentira,
Nem lhe darão mais ouvidos.
Silêncios não servirão –
Como escudos de omissão –
a rancores escondidos.
Com o olhar calmo e limpo
O homem irá à mesa
e ao jantar partilhará
com os outros a certeza
que é parte da sua vida
a verdade vir servida
precedendo a sobremesa.
Artigo VI
A partir deste momento,
Fica também decretado
Que o profeta Isaías
terá seu sonho alcançado:
de ver lobos e cordeiros
como velhos companheiros,
caminhando lado a lado.
E juntos caminharão
viajando mundo afora,
Partilhando o alimento,
pois, a partir de agora,
um só prato os servirá
e sua comida terá
um doce sabor de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável
Fica estabelecido,
que a Justiça reinará
por um tempo indefinido.
E a bandeira da alegria
tremulará noite e dia
Com destaque garantido.
Artigo VIII
Fica decretado que,
de todas, a maior dor
sempre foi e será sempre
não se poder dar amor.
E, assim, sem poder amar,
ver e não se emocionar
com o desabrochar da flor.
Artigo IX
É permitido que o pão
a cada dia obtido
tenha a marca indelével
do suor nele vertido.
E que tenha o sabor quente
da ternura que se sente
pelo filho mais querido.
Artigo X
Fica decretado que
Será sempre permitida,
A cada um, a escolha
Da sua roupa preferida.
E o traje branco será
Veste que se adequará
A qualquer hora da vida.
Artigo XI
É decretado que o Homem
se define, em essência,
como um animal que ama,
é mais amor que ciência.
E esta sua natureza
É a causa da beleza,
De toda sua existência.
Artigo XII
Decreta-se: nada é
Obrigado ou proibido,
E, a partir de agora,
será tudo permitido:
brincar com rinocerontes
ou correr por sobre as pontes,
sem um rumo definido;
E caminhar pelas tardes
Ou sentar-se na janela
com uma imensa begônia
Enfeitando a lapela;
Caminhar pela cidade
Respirando a liberdade
Que também faz parte dela.
Parágrafo único:
Uma conduta será
Para sempre abolida,
E, por isso, ficará
Totalmente proibida:
é o amar sem amor,
pois seria como a dor
de se viver sem ter vida.
Artigo XIII
Decreta-se que o dinheiro
comprar não mais poderá
O sol das manhãs vindouras;
Sol que sempre brilhará
Sobre os campos mais formosos
E com raios generosos
A todos aquecerá.
E o dinheiro então será
Para sempre transformado
Em espada fraternal,
Somente sendo usado
Na defesa do direito
De cantar, a pleno peito,
Canções do amor musicado.
Artigo Final.
Fica proibido o uso
da palavra liberdade,
porque já não haverá
a menor necessidade
de ser dita ou ouvida,
pois será sempre sentida
como doce realidade.
A liberdade será
algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
com sua água corrente.
E terá sua morada
Para sempre alicerçada
bem no coração da gente.
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Segue o link para o texto original de “Os Estatutos do Homem”: http://www.jornaldepoesia.jor.br/tmello.html#estat