Pé de chumbo, pé de vento
Essa é uma história baseada em fatos da vida real. Memórias de minha infância, sempre recheada de aventuras, no meu querido bairro do Pirambu, em Fortaleza. Memórias de uma noite...
De oito de janeiro a seis de fevereiro de 2014, tive a honra de compor o Tribunal Regional da 5ª Região, na condição de desembargador federal convocado, cobrindo período de férias do desembargador federal José Maria Lucena.
Alguns amigos, principalmente dentre os convocados como eu, perguntaram-me se eu exercitaria minha arte cordelística no Plenário do Tribunal.
Deu vontade, mas fiquei receoso. Era a minha primeira convocação e nem sei se haverá outras. Decidi que nada apresentaria na primeira sessão. À medida que me sentisse mais vontade, avaliaria se seria o caso de declamar alguns versos.
No dia cinco de fevereiro, quando me preparava para a última sessão daquele período, os versos me vieram à mente. Anotei-os imediatamente e levei ao plenário.
Mas, confesso, hesitei. E, antes que me desse conta, a sessão havia acabado. Não tive presença de espírito para quebrar o protocolo. Esses foram os versos que não declamei…
No dia que aqui cheguei,
No meio de um papo ameno,
Amigos me perguntaram:
“Teremos cordel no Pleno?”
Respondi, quase sorrindo,
“Cordel é sempre bem-vindo,
Mas hoje está complicado.
Além de estar bem nervoso,
Fico um pouco receoso
De ser mal interpretado”.
“Mesmo aqui, neste ambiente
De pessoas de leitura,
Que enaltecem o saber
E dão valor à cultura,
Chegar fazendo poesia,
Logo no primeiro dia,
Talvez não seja adequado.
Acho melhor esperar
Para me manifestar
Já melhor ambientado”.
Hoje, como é despedida,
E estou bem mais à vontade,
Permitirei que meus versos
Transitem com liberdade
No espaço deste plenário,
Que ao Poder Judiciário
Tanto honra e enaltece.
Justiça aqui se tem feito,
Ao entregar o Direito
A quem direito merece.
Dessa forma, me despeço,
Certo do dever cumprido.
E, depois que desta Corte
Já houver me despedido,
Voltarei ao Ceará,
E, quando chegar por lá,
Direi para toda gente
Da emoção que sentia,
Cada vez que aqui dizia:
“É o meu voto, presidente”.